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Sobre a paz que me tirou

Eu estava em paz, quando você chegou. Quieta, singela, discreta, presente e atraente. Chamou a atenção suficiente pra que, de soslaio, eu te observasse e admirasse.

Não era só pela pele branca e lábios vermelho-vivos, ou pelos olhos verdes (castanhos na verdade...Mas ali havia mais de um tom, com toda certeza) ou, ainda, pelo lindo e comprido cabelo preto. Tão linda e dona de uma inteligência sem igual, combinação tão forte quanto a bomba que devastou Hiroshima.

Observei você por algum tempo, pensando em algo a dizer ou em como chegar, puxar assunto. Embora quisesse muito uma aproximação, te olhar me bastava. Até que foi embora. Se um dia houve, em toda a minha vida, uma partida tão significativa após um repentino aparecimento, essa foi a sua. Passei, então, a te procurar durante os dias seguintes.

Cada passo, cada espaço, cada centímetro cúbico em que pudesse haver vida...Ali estava eu procurando traços de você. Uma jornada incessante e quase exaustiva, mas que rendeu o melhor prêmio já visto em qualquer concurso ou caça ao tesouro – aliás, era isso: um tesouro – diante de mim. Quando nos encontramos pela primeira vez, a sós, você sorriu tímida porém sinceramente. Nunca vou me esquecer do seu sorriso e nossa hesitação em seguir logo ao tão esperado beijo.

Por alguns minutos – que mais pareceram infinitas horas – permanecemos ali, sentados lado a lado e se olhando. Eu tracei linhas em um papel imaginário, com uma habilidade que até os anjos duvidariam, dos traços de teu rosto; guardei cada movimento, cada desenho feito enquanto você falava, sorria, me beijava. Até quando me olhava, desenhei teus olhos e um certo brilho que emanava.
Repetimos nossos encontros por mais algumas vezes e, sem aviso prévio, você sumiu. Te busquei, te liguei, te desejei, sonhei contigo...Mas não nos vimos mais durante alguns dias. Pensei no que poderia ter feito ou dito de errado, talvez até tivesse pensado em voz alta e confidenciado a você algo inapropriado, mas não. Dias depois, você reaparece e pede pra conversar.

A conversa nunca houve pessoalmente, mas muito foi dito em entre linhas e expressões mal feitas e interpretadas. Nossos momentos sobreviveram, aquela canção que você me ensinou a gostar passou a ser parte integrante da vida e da playlist que carrego no celular. Acho que, lá no fundo, nunca nos esquecemos – e, tampouco, esqueceremos um do outro tão cedo. Ainda assim nos afastamos.

Eu tinha marcado na minha agenda o seu aniversário, encontrei seu endereço, pensei em passar e dizer “Olá, como tem passado?”, mas não seria o certo a fazer. Parei o carro e, por um tempo incontável, meus olhos se fixaram ao horizonte e no sol poente, trazendo à lembrança da memória que continha você. Beijos, toques, desenhos, traços, linhas perfeitas, olhares, o cheiro do seu perfume...Todos os teus traços e marcas eu havia conservado em mim como que se fosse parte de mim. E foi, por um tempo ou talvez seja pra sempre, parte de mim.

O horizonte, o sol poente, a música preferida, o seu sorriso. Partes de uma sinfonia que, talvez, um dia eu volte a ouvir bem de perto, sentindo o seu perfume enquanto te beijo. 

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