segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A Estação

Eu observava, do outro lado da plataforma, um casal e seus dois filhos. Enquanto a mãe distraia e dava de comer ao mais novo, o pai se divertia com a outra filha em uma brincadeira que eu não conhecia mas que, certamente, era muito divertida.

Os pais, entre uma garfada aqui e outra risada ali, se entreolhavam sorridentes. Era um sorriso puro, se via apenas respeito, amor e sinceridade entre eles. Comecei a refletir sobre tudo à minha volta; aos meus treze anos eu sonhava em ser pai aos vinte e um, e ser avô aos cinquenta. Pensei nas namoradas que tive, nas oportunidades que perdi – e nas que aproveitei mas não levei até o final.

Lembrei de amores roubados, beijos escondidos, amores proibidos. Lembrei de você também, pois via naquela mulher da outra plataforma o mesmo sorriso de quando nos encontrávamos ou, então, de quando falávamos sobre família e eu lhe confidenciava o desejo de ter três filhos. Ah, como eu amo o teu sorriso!

Via naquelas crianças uma juventude inteira pela frente, repleta de alegria, amor e oportunidades e sentia o dever de alertá-las sobre a importância de se agradecer a cada manhã nova, a cada raio de sol que entraria pela janela. Sentia o dever de dizer: ouçam seus pais sempre mas, sempre que puder, tentem mesmo que digam ser impossível; queria dizer que lágrimas cairiam daqueles lindos olhinhos mas que, lá no fundo, seria necessário e ajudaria na vida adulta; queria dizer que, apesar de cansativa, a universidade e o conhecimento são necessários para que se aça a diferença na vida de outras pessoas – e nas nossas também.

Sentia o desejo de alertar sobre as aventuras do amor, precaver quanto às decepções e armadilhas, invejas e tentativas de destruir o que eles haviam conhecido e vivido dentro de casa como sendo o amor verdadeiro. Dizer que quando o coração doer, é porque a pessoa faz falta de verdade; que quando houver lágrima logo depois vem o sorriso; que quando houver pedaços, haverá como consertar basta deixar que o tempo sirva como reparador.

Eram tantos conselhos para dar, segurança para passar àquelas crianças. E eu senti o desejo, me levantei e comecei a caminhar em direção delas.

O trem chegou, a porta se abriu diante de mim e pude, então ir embora. Afinal, de que adiantaria dar a receita de uma vida perfeita sendo que, na verdade, o que se espera de qualquer ser humano é que viva de forma a errar e aprender com cada ação.


De que adiantaria uma receita só, para produzir vários mesmos de um eu? 

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